Entrevista com a banda Pedra Rara - ZÉ ORLANDO (Ex-Tribo de Jah)

15/05/2010 20:43


Pela filosofia de torcedor e boleiro um time vitorioso começa pelo goleiro. Em uma banda vitoriosa pelo vocalista. E a Pedra Rara tem como o idealizador, líder e interprete Zé Orlando

Seus 23 anos como vocalista e percussionista na Tribo de Jah lhe deram régua, compasso e uma vasta experiência dentro e fora do Brasil para começar um novo desafio com solida perspectiva de êxito. Os fãs da sua antiga banda sabiam que era show com dois momentos. Quando o assumia o vocal era o momento de alto astral e leveza do show. Agora ele vai levar esta atmosfera integralmente na sua nova banda. Outro diferencial neste novo projeto é a diversidades nas composições. No primeiro CD são 10 músicas com mais de cinco autores com forma de singular de compor. O disco tem como título a pedra preciosa Ônix. E os próximos discos continuaram com tendo título de pedras preciosas. O montou a sua banda com novos músicos da cena reggae: Dennis Tocha (bateria), Renato Babu (baixo), Thiago Fermino (guitarra), Thiago Mike e Arthur Spinas. Este time com “fome de bola” já mostrou no palco nos primeiros shows todas as habilidades e vontade de fazer um trabalho na cena reggae livre dos estereótipos do reggae jamaicano. Um reggae com características brasileiras sem perder a identidade do reggae raiz.  

Segue abaixo a entrevista exclusiva da Pedra Rara em 01/05/2010 para a www.ritmomelodia.mus.br :

1-) Ritmo Melodia – Qual sua data de nascimento e sua cidade natal?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Nasci em 20/07/1964 em Guimarães – MA.

2-) RM – Fale do seu primeiro contato com a música?

Pedra Rara/ Zé Orlando – O meu primeiro contato com a música foi aos quatro anos de idade em um programa de TV (difusora) em São Luís - MA em 1968 em um programa de calouros em que fui agraciado com o primeiro prêmio. Eu e meus colegas do colégio de Cegos não estudávamos música na escola. Só estudávamos o Braille. A música nós aproximou. Pois acreditávamos no que estávamos fazendo. Na época ouvíamos muito reggae nas rádios AM. E alguns programas tocando somente reggae. E ouvíamos também: Roberto Carlos, Waldic Soriano, Carlos André e tantos outros.

3-) RM – Qual sua formação musical e escolar?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Sou formado através da principal escola de músico do mundo, que é tocar à noite nos bares, bailes e casa de show da vida. Eu ainda não estudei teoria musical, tudo que aprendi foi através da prática. Eu não concluí o ensino médio.

4-) RM – Quais suas influencias musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Como nordestino sempre vivi em um caldeirão de ritmos como: forró, brega, lambada, bumba meu boi, rock, axé music, reggae, entre outros. Além disso, comecei minha carreira musical como músico de baile e passei 16 anos tocando todos os ritmos. Isso me deu um aprendizado inigualável até mesmo para ser usado nos shows que faço hoje em dia.

5-) RM – Quando, como e onde  você começou sua carreira profissional?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Comecei em São Luís - MA em 1979 em uma banda de nome Brazilian Boys. Por conta do nosso entrosamento como músicos, nós éramos bem vistos pelos donos de equipamentos para show que vez por outra sempre convidava um ou outro para fazer parte de bandas. Mas eles sabiam que não aceitávamos tocar se não fossemos todos juntos. Então desistiam de tal convite. As Radiolas foram fundamentais em nossa vida musical, pois além de fazerem as aberturas de nossos shows-bailes. Algumas vezes tivemos que usar alguns equipamentos de Radiolas para tocarmos.

6-) RM – Quando, como e onde  surgiu a Tribo de Jah?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Em 1986 quando estava ensaiando com meus parceiros da banda Reflexo. O Fauzi Beydoun se apresentou e nos disse que estava comprando o equipamento da banda que trabalhávamos. E nos perguntou se topávamos trabalhar com ele em uma proposta autoral (músicas próprias), assim começou tudo. Apesar de ser uma ótima oportunidade teríamos de lidar com uma matéria totalmente nova (a criação) afinal tínhamos a experiência de copiar músicas de outras bandas, mas isso não nos assustava, pois os desafios existem para serem transpostos.

7-) RM – Qual a importância da Tribo de Jah na sua carreira musical?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Através da Tribo de Jah pude mostrar meu potencial como vocalista para o Brasil e pro mundo, antes só conhecido pelos clubes de bailes do Maranhão. Então, foi uma trajetória muita relevante na minha carreira. Tocamos na Jamaica, no Japão, no USA, na Itália, na Holanda, na Suíça, em Cabo Verde (África), na Argentina, no Uruguai, na Guiana Francesa. Isso traz muita responsabilidade frente aos meus fãs. E, acredito que esse é um verdadeiro presente divino.

8-) RM – Como foi dividir com Fauzi Baydoun o vocal da Tribo de Jah? Quais os prós e contras?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Foi uma trajetória de muito valor em minha carreira musical. Pois, a Tribo de Jah tinha dois estilos totalmente diferentes um do outro no mesmo show. Um vocalista complementava o outro. Entendo que não temos capacidade de julgarmos uns aos outros. E por este motivo vejo que a individualidade de todos tem que ser respeitada.

9-) RM – Quais os motivos e motivações que fizeram você saída da Tribo de Jah após 23 anos de banda?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Quando se vive em um lugar por muito tempo acaba causando certo desgaste. Além disso, tem o desejo de aprender e fazer nossa própria história. E nos dar o direito ao livre-arbítrio. Minha saída deu-se mais pelo motivo de já está alimentando uma ideia de seguir uma carreira solo. Desde junho de 2006 quando imaginava colocar a minha voz e minha música como porta-voz de projetos sociais. E quando estamos focados em duas atividades diferentes não fazemos as duas com o mesmo empenho, por este motivo decidi sair.

10-) RM – Qual foi a reação dos seus colegas de banda com a sua decisão de sair?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Foi uma reação de repudio. O repudio que falo foi em relação à atitude que tomei. Pois as pessoas jamais imaginam que você saindo de um trabalho que passou muito tempo e quem tem garantia financeira, possa dar a volta por cima. Mas acho que pensar assim, é se acomodar e não ter coragem de lutar por aquilo que acredita. A nossa capacidade de superação é ilimitada, basta querermos.

11-) RM – Você imaginou a hipótese dos seus colegas de Tribo de Jah (os que você conheceu e montou sua primeira banda no colégio de deficiente visual) o acompanhar para seu novo projeto musical?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Quando imaginei o projeto da Pedra Rara pensei um trabalho paralelo à Tribo de Jah com eles tocando comigo. Mas com o decorrer do tempo vi que isso não teria como ser feito. Pois, tínhamos certa estabilidade financeira na Tribo de Jah. E sair para realizar outro projeto seria começar tudo do zero, então decidi sair sozinho. Na verdade em uma viagem que fizemos a fortaleza em 2007 cheguei a conversar com o Fauzi a respeito de eu fazer uma futura gravação solo. Nesse meio tempo fiz alguns shows solo e o Fauzi não gostou. E já havia certo desgaste na nossa relação, afinal foram 23 anos. Além do mais não se pode servir a dois senhores. Ou você toca em uma banda ou em outra. E eu já estava totalmente envolvido com o projeto da banda Pedra Rara. E para não sair com as portas fechadas. Eu preferi conversar com todos e deixá-los. E seguir o meu novo caminho.

12-) RM – Por que no seu novo projeto musical você optou em usar o nome de banda (Pedra Rara) e não o nome do cantor Zé Orlando?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Primeiro porque usar clichês do reggae como Leões Raiz, Dread, Babylon Tribos, já estão muito batidos. No meu entender tinha que buscar um nome diferenciado e com consistência. E procurei vê na beleza do ser humano e na desigualdade de pensamento, observação, sentimento e até mesmo formas de argumentação a raridade que somos. Então decidi optar por um nome que desse sentido a tudo isso.

13-) RM - Explique a escolha do nome da banda? Quem são os músicos que formam a Pedra Rara?

Pedra Rara/ Zé Orlando – O nome Pedra Rara foi tirado da Bíblia (Exodus cap 39 vers. de 6 a 14) quando Deus pede para Moisés construir seu templo com as 12 pedras raras. E os músicos que formam a banda são: Dennis Tocha (bateria), Renato Babu (baixo), Thiago Fermino (guitarra), Thiago Mike e Arthur Spinas (teclados) e eu (vocal e percussão).

14-) RM – Fale do primeiro CD da Pedra Rara (músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical do CD? E quais as músicas que estão entrando no gosto do seu público?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Neste primeiro CD – Ônix queremos colocar uma pitada de diferente no reggae nacional. Por exemplo, uma música inteiramente com orquestra clássica. E mesmo com toda experiência que adquirimos ao logo deste tempo temos a consciência que será um grande aprendizado. Não queremos trazer somente o reggae em si, mas muita informação sem perder principalmente a essência do ritmo. O público reggae pode ter a certeza que estamos chegando com uma proposta nova e muito dançante. O músico tem a perspicácia para saber que as músicas sendo de vários compositores estas melodias em geral jamais serão parecidas. O que pode acontecer são os temas serem os mesmos, mas aí é que entram os produtores para não deixarem a mesmice prevalecer.

15-) RM – Como você define estilo musical da Pedra Rara dentro da cena reggae?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Não somos reggae, somos world music. Quando falo em world music falo que o nosso reggae pode ter influencias diversas. Desde o estilo mais rústico até o estilo mais moderno. Isso implica em conhecermos vários estilos musicais.

16-) RM – As suas experiências de estrada e musical na Tribo de Jah vai contribuir como na Pedra Rara?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Sem dúvida nenhuma afinal foram 23 anos de aprendizado pelo Brasil e pelo mundo. Durante todo este tempo de Tribo de Jah eu tive a oportunidade de aprender muito. E com meus colegas deficientes visuais cada dia que vivemos, eu sempre aprendi mais a respeitar a individualidade de cada um independente de quem seja e das nossas limitações.

17-) RM – Você estreia na Pedra Rara seu lado de compor?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Por enquanto ainda não componho. Apenas interpreto músicas de outros compositores. Mais isso não quer dizer que no futuro eu não venha a compor ou sozinho ou em parceria.

18-) RM – Quais são seus principais parceiros musicais?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Tenho recebidos músicas de vários compositores do país. Então, a princípio não tenho parceiros. Estou neste primeiro disco analisando o vasto material que chega. E escolhendo o repertório pro disco junto com meu produtor Marlon Siqueira.

19-) RM – Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Entendo que não é somente no Brasil que temos dificuldade em desenvolver uma carreira independente. Mas vejo que os desafios existem para serem superados. Quando fazemos um trabalho com conceito. Ele terá o seu devido valor.

20-) RM – Como você analisar o cenário reggae brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações na última década e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Observo que têm muitas bandas fazendo a mesma coisa. E isso não é bom, pois acaba sacrificando o mercado de uma forma geral, No meu entender revelações desta década foram: Natiruts, Planta e Raiz e Ponto de Equilíbrio, Nengo Vieira. E artistas com obras perpetuadas são: Tribo de Jah, Edson Gomes e Cidade Negra.

21-) RM – Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Não tenho propriamente um artista como referencia. Mas ao ver um show bem montado me delicio só de assisti-lo. Mas aqui no Brasil os produtores de eventos não têm o mínimo de respeito para com seus artistas, salvo algumas exceções.

22-) RM – Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical ?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Todas que você imagina, pois o artista sem essas situações não tem como fazer história, uma dessa historias aconteceu na Guiana Francesa em 1994 em um show que estávamos fazendo na Praça da Palmice, caiu uma chuva incessante durante duas horas. E o povo que estava no show parecia que estava em estado de êxtase. E só saiu quando o show terminou. E é importante dizer que o evento era ao ar livre. Somente o palco era coberto. A outra história aconteceu em Cabo Verde na África. O ministro da cultura teria que discursar após o show, mas o público não deixou. Pois tivemos de tocar durante três horas foi maravilhoso...

23-) RM – O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Pedra Rara/ Zé Orlando – O que me deixa mais feliz é ver o meu trabalho sendo reconhecido pelo público. O que me deixa muito triste é a falta de consideração tanto de produtores como de empresários para com a arte em geral.

24-) RM – Quais os músicos e bandas de reggae no Brasil que você recomenda ouvir?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Costumo ouvir todas as bandas de reggae, sejam nacionais ou estrangeiras. E respeito todas as diferenças, alem disso não posso citar nomes, se não posso cometer injustiça.

25-) RM – O que você acha das banda de reggae no Brasil que querem ser mais jamaicanas que as bandas da Jamaica?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Acho uma falta de identidade. Aqui no Brasil temos pré-requisitos como nenhum outro lugar no mundo em termos rítmicos. É inconcebível nos dias de hoje, vê vocalistas que vivem de imitar o jeito de cantar e de se comportar no palco do Bob Marley. Isso é muita falta de identidade.

26-) RM – O que você diria para as pessoas e meio de comunicação que ainda relacionar o gênero musical reggae a religião Rastafári e a maconha?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Estas relações têm nada haver se formos estudar a fundo estas questões, a exemplo: a maconha na Jamaica já era consumida pelos índios antes do descobrimento 1492. O reggae nasceu no fim de 1940 e manteve suas evoluções. E, quanto à religião é uma escolha de foro íntimo e cultural de cada pessoa. O gênero musical do reggae traz a mensagem de positividade, consciência e crítica social.

27-) RM - Na sua opinião o que falta pra cena reggae brasileira ter o mesmo valor que o reggae tem fora do Brasil?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Valorização tanto por parte dos músicos como por parte daqueles que fazem eventos de reggae. Acredito que na hora que as bandas brasileiras começarem a fazer um reggae autenticamente brasileiro sem querer ser jamaicano. Mas lógico sem perder a essência que o ritmo tem. Aí com certeza  a valorização será melhor.

28-) RM – Você acredita que sua música vai tocar nas rádios sem o jabá?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Duvido muito.

29-) RM – O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Digo que as barreiras foram feitas para serem transpostas. E digo mais, o que nos impulsiona para a vida é o sonho.

30-) RM – Quais os projetos futuros?

Pedra Rara/ Zé Orlando – Por enquanto estamos muito focados neste CD – Ônix. Quanto ao futuro deixo a cargo do criador (Deus).


 

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